Quando sobem os créditos
Aqui termina a viagem para Elizabethtown.
Foi com uma frase desse tipo – onde, naturalmente, o termina dava lugar para um começa – que a doce Claire deu início a esse blog. Isso foi há mais de dois anos, logo depois de nos apaixonarmos por um filme sobre pessoas que se encontram – consigo mesmas – depois de buscarem algo de verdade na vida. É um filme lindo – um dos meus favoritos -, mas que muita gente até hoje não entendeu. Na época em que demos início a essa parceria, eu e a Claire ainda não nos conhecíamos pessoalmente – ou pelo menos nunca havíamos trocado uma palavra pessoalmente. Foi pelo MSN que ela me avisou que tinha criado o blog e que, a partir daquele dia, eu seria o Drew nessa história.
Foi uma história muito bonita. Por causa desse blog, conheci pessoas e ouvi elogios sobre os meus textos que valeram à pena. Mas chegou a hora de acabar. Há muito eu não falo com a Claire sobre ele – o blog – e talvez ela nem se lembre de que o colocou no mundo. Também não vou falar com ela sobre a minha decisão de acabar com ele. Ou melhor, minha decisão de ignorá-lo – oficialmente – a partir de agora. E esse oficialmente – se você aparece por aqui às vezes vai entender do que eu estou falando – é só para formalizar mesmo. Há muito eu não posto nada e, das últimas vezes, os textos vieram separados por intervalos de tempo imensos.
Como eu acredito muito que o valor das coisas acaba sendo medido pelo tempo que elas duram, esse espaço não vai mais durar. Ele vai continuar existindo – pelo menos até o UOL ou alguém decidir tirá-lo do ar -, mas não vai mais ser atualizado. Escrevi textos aqui dos quais me orgulho muito, mas há bastante tempo eu já não ando motivado para continuar postando. Talvez porque a idéia inicial – que eu nunca soube exatamente qual era – tenha se esgotado.
A partir de agora, passo a escrever em um novo espaço que eu acabei de criar na internet. O nome do blog, Torta Mágica, vem de uma música muito especial de uma banda muito especial para mim. Oasis.
A proposta – se é que havia alguma aqui – é totalmente diferente. Mas eu não vou me preocupar em explicar isso nem aqui e nem lá. O que posso adiantar é que serão textos mais curtos, mais freqüentes. E quero postar mais imagens, links, tratar de mais assuntos. Com o tempo eu decido.
Muito obrigado pela companhia durante essa viagem.
De alguma maneira eu acredito que os dois aí em baixo estão tristes com a despedida. Mas há novos caminhos para se desbravar.
Ciao.
A grande nevasca
Eu sei que repeti diversas vezes um mesmo discurso indignado contra as receitas milionárias do Cirque du Soleil. E também sobre a colaboração do Ministério da Cultura com as cifras astronômicas do grupo. Prometi, ainda, jamais pagar um único real para assistir aqueles intermináveis e chatos números de contorcionismo. Da minha parte, eles jamais receberiam a mais ínfima colaboração. Mas não teve jeito, uma cortesia garantindo um lugar na primeira fila me venceu.
Fui ver de perto o espetáculo Alegría em uma noite fechada para os poderosos de Brasília. O evento, bancado pela TAM, liberou pipoca e refrigerante a noite toda para dois mil e quinhentos convidados. Não, eu não estava na lista. Mas alguém que estava preferiu não ir.
A primeira impressão foi assustadora. No minishopping montado logo na entrada, poucas lembrancinhas com a marca da trupe podiam ser compradas por uma bagatela com menos de três dígitos. A segunda foi, no mínimo, muito boa.
Na tenda principal, onde fica o picadeiro, é fácil perceber que os caras não estão para brincadeira. Com um palco digno de grandes concertos internacionais, tudo ali impressiona pela grandiosidade. Daria para falar sobre a boa música, figurino e maquiagem impecáveis, e até sobre um ou outro acrobata voando sobre as nossas cabeças que chegam a empolgar. Mas a grande surpresa mesmo veio com o final da primeira parte do show.
Já ouvi diferentes explicações para o que acontece ali, mas para mim aquilo é uma história de amizade. Depois de atravessar estradas sob o sol procurando o amigo, um palhaço resolve partir para o outro lado do mundo à sua busca e vai parar no meio da neve.
Aí mora a grande surpresa. Os efeitos são simples, mas causam um resultado arrebatador. Com a ajuda de um ventilador gigante, que ninguém consegue enxergar, e dezenas de quilos de papel picado branco, o circo transporta a platéia para o meio de uma imensa nevasca em algum lugar do planeta. Paralisado, o público só se dá conta de que a mágica terminou quando as luzes se acendem e tudo se movimenta para um intervalo – não anunciado – de trinta minutos.
Na volta, continuam as torções de corpos e as brincadeiras sem graça. Mas já não é preciso mais nada. O gelo foi quebrado pela tempestade de neve.
A aurora da vida

Depois de tanto tempo sem escrever aqui, eu andava precisando de um bom motivo para retomar. Pois o mundo acabou me dando, na última sexta-feira.
Devo dizer que a morte de alguém nunca é um bom motivo para nada, ainda que a estejam merecendo. Mas neste caso, especificamente, foi um bom pretexto para lembrar de algo. A morte a que me refiro, no caso, é a de Paulo Autran, ícone dos palcos brasileiros cujo coração parou de bater no dia 12 de outubro.
Até ontem, a minha principal lembrança deste ator seria sempre daquele homem de bengala, caminhando de um lado para outro no palco no Theatro Pedro II, em Ribeirão Preto. A peça era Adivinhe quem vem para rezar, um texto do Dib Carneiro Neto. Eu realizava o antigo desejo de ver aquele símbolo do teatro ao vivo.
No final das contas, acabei, como a imensa maioria dos presentes, aplaudindo mais o próprio Autran que a peça em si. A montagem era monótona e sem graça, mas eu nunca vou esquecer da sensação de enxergar, da primeira fila, as veias saltando no pescoço daquele senhor de cabelos brancos enquanto ele falava.
Só até ontem.
Com a reprise da brilhante entrevista que o ator deu ao Canal Livre em janeiro de 2006, o programa – um diamante que brilha nas noites de domingo – exibiu ontem uma verdadeira relíquia da arte nacional. Passou a ser, desde então, minha nova referência sobre Autran. Em uma hora de conversa, ele criticou as políticas culturais do Brasil – ou a falta delas -, falou de momentos de sua carreira e contou que não assistia televisão havia oito anos. Em todo este tempo ligara o aparelho uma única vez, em 2001, para acompanhar os ataques terroristas aos Estados Unidos.
Para encerrar ele declamou dois textos. O primeiro foi o Poema enjoadinho, de Vinícius de Moraes. O segundo e último foi Meus oito anos, de Casimiro de Abreu. Antes de começar, falou de como este poema, com o passar dos anos, ia tendo para ele novos significados, novas conotações.
Com os olhos marejados e o coração na boca, ele repetiu os versos sobre a aurora de sua vida, sobre a infância querida que os anos não trazem mais. E o programa terminou com uma salva de palmas dos entrevistadores diante da lenda.
Sublime e emocionante, como só a boa arte consegue ser.

Perdas e ganhos

Para algumas culturas, a vida é uma constante compensação. Tudo tem um preço. A felicidade tem um preço, a tristeza também, nada vem por si só. Deus deve realmente saber a medida exata das coisas. É como um crente na idéia de que ninguém ganha uma cruz tão pesada que não consiga suportar. Como quem acredita que tudo é um preâmbulo do que realmente lhe é de direito. E deve ser por isso que nenhuma felicidade se basta. Nenhuma alegria fala por si só. E deve ser por isso que a cada novo dia surgem tantas novas igrejas, para que as pessoas busquem nesses lugares o que não encontram dentro de si mesmas. E deve ser por isso que às vezes o coração aperta e a gente se sente tão infeliz. Infeliz apesar de uma grande alegria. Uma alegria que custa um sonho, mas que tem um preço. Um preço que a gente nunca está disposto a pagar. Principalmente se a gente acreditar que a felicidade deve realmente ser um caminho, e não um destino. Aí é bem capaz que a gente se conforme com a idéia de que algumas coisas acabam para sempre. E isso nunca paga nada. Nem uma felicidade muito grande, nem algo que se sonhou uma vida toda. Porque a tristeza é sempre tão maior que a felicidade que se esperou. E o mundo pode, finalmente, voltar a ser o lugar onde você vai despejar suas angústias e seus fracassos. Para sempre. Como uma ópera que nunca termina. Como uma tragédia em forma de ilusão.

Estatuetas e mãos vazias

Teve o Oscar ontem. Estou feliz pelo Martin Scorsese. Tudo bem que foi uma pena Babel ter passado quase batido — “só” ganhou pela ótima trilha sonora. Pena maior ainda foi ver a Jennifer Hudson ganhando para atriz coadjuvante e deixando a Adriana Barraza — fenomenal — e a Rinko Kikuchi de mãos abanando. Essas duas últimas concorriam na mesma categoria por suas atuações em um mesmo filme, o meu favorito, Babel. A menina Abigail Breslin — de A Pequena Miss Sunshine — também disputava o prêmio. Aliás, o grupo de Sunshine, reunido no canto direito do auditório, era o mais simpático e animado da noite. Estou em dúvida se acho que a Cameron Diaz estava bonita, eu sempre acho isso. Mas ela estava “diferente” ontem. Entre os caras mais legais, tinha o Mark Wahlberg — todo engomado — e o bacana Clive Owen — todo esquisito com uma roupa azul-marinho. Mas ver os Infiltrados — filme de Scorsese — se consagrar valeu a noite. O filme é maravilhoso, mas nem é só por isso. É mais por tudo o que esse cara representa para a sétima arte e pelo tanto que estava esquecido pela Academia. Mas não achei bacana o discurso dele, você sempre espera que um Scorsese diga algo maior que aquilo. Aliás, deixei para citar no final aquele que foi, de longe, o melhor momento da noite. Se você esquecer tudo e considerar só o fato de quem foi escalado para apresentar o prêmio de diretor, não teria como ele não ser o vencedor. Foi lindo ver Steven Spielberg, Francis Ford Coppola e George Lucas entregando a estatueta para o diretor de Infiltrados. Aquele senhor grisalho, com aqueles óculos de molduras pretas enormes, subindo a escada e fechando o quarteto fantástico. Não tinha como não ser ele o vencedor. Foi mágico ver aquele grupo reunido ali. Clássico.

Sinfonia

Trilogia sobre a teoria do caos. É assim que Alejandro González Iñárritu passou a se referir aos seus três filmes. O diretor mexicano, que está concorrendo ao Oscar por seu mais novo rebento, Babel, é o meu favorito de todos os tempos. Pelo menos atualmente.

Se fosse listar meus dez filmes preferidos, Amores Brutos, 21 Gramas e Babel certamente estariam entre eles. Não sei se essa certeza perdurará, mas ao menos por enquanto, ainda anestesiado pelo efeito do último que acabo de assistir, isto é certo.

Em uma entrevista antiga, Iñárritu confessou gostar da maneira como afetamos uns aos outros. E é justamente nesse poder que nos conferiram que estão as maiores glórias de suas obras.

Dizem que Babel é sobre compaixão. Mas acredito que ele tenha muito dos sentimentos de perda e de paixão desmedida que marcaram as obras anteriores. É uma espécie de épico, uma obra de arte que esmaga o estômago. Que machuca.

Como uma sinfonia doce, amarga e triste. Muito triste. O que é aquela cena do Brad Pitt chorando enquanto fala com o filho pelo telefone? Ou aquele silêncio dilacerante que a menina vive sobre uma pista de dança fervilhando? E tantas outras coisas também.

Confusões armadas e angústias desmedidas. Uma coisa bíblica.

Entre canudos e despedidas

Esse meu post vem com atraso. Mas isso não é novidade, é sempre assim. Ele é sobre a minha formatura, ou melhor, sobre se formar.

Mais que a alegria de cumprir uma nova etapa da vida, ou das festividades movidas à estímulos etílicos, uma formatura traz imiscuído em suas entranhas um conjunto de sentimentos e sensações. Mais que a alegria de finalmente se formar e atirar meu capelo para cima ao final da Colação de Grau, tive a felicidade de ser o orador da minha turma.

Dizem que o meu discurso começou a ser escrito no início da faculdade. Isso porque eu sempre falei sem censura sobre o meu desejo em ocupar tal cargo no dia da cerimônia. Como se fosse um sonho, como se fosse algo pelo qual eu aprendi a esperar eternamente. E naquele dia, durante aqueles quase dez minutos em que ocupei a tribuna do teatro, eu acreditei piamente nisso. E foi com a fé de um pagador de promessas que eu falei. Falei como se jamais o tivesse feito antes, como se o mundo todo pudesse ouvir. E hoje, exatamente quinze dias depois do grande dia, confesso que me sinto extremamente orgulhoso por isso. E feliz.

Falei sobre o tanto de coisas que acontecem em um intervalo de quatro anos. Sobre a primeira vez que atravessamos as catracas da faculdade como alunos. Sobre uma vida inteira em um intervalo de quase mil e seiscentos dias. Sobre um poema do Fernando Pessoa que fala de um olhar que sofre do pasmo essencial. E foi aí que disse que para mim é justamente isso o que o jornalismo tem de melhor, esse pasmo essencial.

Também quis falar sobre fazemos parte de uma esmagadora minoria que tem a obrigação de trabalhar pelo progresso de um país onde apenas 10,4% dos jovens estão na faculdade. Sobre um país que ainda não é candidato a pegar o bonde da história.

E no trecho do texto em que mais me senti feliz, falei sobre o final dessa história. Dessa história que começamos a escrever na faculdade. Uma história que termina feliz, mas que também termina triste. Porque todo fim traz consigo um pouco de tristeza também.

Deve ser verdade quando dizem que a felicidade não é um destino, mas um caminho, uma trajetória. E aí a felicidade deve estar, realmente, no caminho que todos os formandos percorreram até ali. Nas marcas que tudo aquilo nos deixou. E bem já disseram que não se deve subestimar as marcas que se deixa nas pessoas.

Encerrei desejando que o nosso caminho fosse sempre como um verso de Fernando Pessoa. Algo sobre ser inteiro de verdade. E roguei para que o mundo fosse realmente justo com a história que todos juntos começamos a escrever ali. Agradeci, pela enésima vez, a oportunidade de ser o orador da quarta turma de jornalismo e desejei que aquele fosse o primeiro dos dias mais felizes de nossas vidas.

Dei boa noite a deixei o púlpito. De repente, assim como terminam as boas canções do Strokes. No momento em que ninguém espera. É assim que terminam as melhores músicas e os melhores filmes. É assim que terminam as melhores histórias. E também a vida.

Às vezes são finais felizes, às vezes são tristes. Mas a gente pode pensar que sempre trazem coisas boas. Mais que isto, minha formatura trouxe muitas alegrias para tantas outras pessoas que estavam ao meu lado. E não há poema, história, discurso ou canção que pague isso.

Uma alegria que terminou com um boa noite. Rápido e repentino. Curto e inesperado. Triste, como um bom verso sobre a angústia de se despedir para sempre.

Veludo

Francisco Petrônio morreu. Acabei de ler no jornal de hoje, mas isso aconteceu na última sexta-feira, dia 19. O cantor era conhecido como “a voz de veludo” e fez muito sucesso nas rádios entre as décadas de 60 e 80. Engraçado como nenhum programa conseguiu encaixar a notícia do fato em sua grade. Mesmo no jornal, a notícia foi uma nota extremamente compacta. Engraçado não, previsível. Eu não sei qual era a cara de Petrônio, nunca o vi em lugar algum. Sei apenas que meus avós foram assistir a um show dele em Ribeirão Preto, há milhares de anos. Sei também que foi uma música dele que eu escolhi de trilha para o vídeo que usei na apresentação do meu TCC. Um vídeo que eu fiz para contar uma história saudosista. Tudo a ver com aquela voz melancólica, sofrida. Não era uma música dele, mas sua interpretação para Fascinação, que tanto meu avô adora. Traído por conseqüências cerebrais degenerativas e pelo peso de mais de nove décadas de vida, ele já quase não se lembra. Mas eu me recordo bem de quando ele me contava sobre o seu casamento, há mais de 65 anos atrás. Todos aqueles corpos indo e vindo no balé da valsa, no meio da fazenda. Ao som dessa música. À luz do sol, embalados pelo fascínio de uma lamento. Sobre castelos erguidos de quimeras mil. Sobre sonhos despedaçados e esquecidos. Como as lembranças que meu avô insiste em guardar. Como a grandeza de um cantor esquecido. Morto e aprisionado no asilo da história.

Memórias

Tenho muitas histórias para contar sobre a Feira do Livro do ano passado. Nem parece que ela foi há tanto tempo. Tem muitas coisas que eu vivi naqueles dez dias. Muitas conversas com escritores, muitos presentes. Lembranças que renderiam textos e mais textos. Algumas histórias muito interessantes, outras nem tanto. Mas todas muito marcantes para mim.

Um dia eu ainda vou escrever sobre isso. Talvez aqui, talvez em outro lugar. São coisas que eu preciso contar, antes que eu me esqueça.

Continua

Chamei o post anterior de "antes que eu me esqueça". É um bom título, eu acho, mas não é meu. O jornalista Ricardo Kotscho me contou que esse era o nome que ele tinha escolhido para o seu livro, que acabou se chamando Do Golpe ao Planalto. Ele me falou isso no dia em que eu o conheci em Ribeirão Preto, durante a Feira do Livro no ano passado.

Então eu me lembrei desse título quando escrevi o texto anterior. Lembrei porque estava lendo o livro naquele dia. Gostei muito do livro, mas penso que o título original seria bem melhor do que aquele que ele teve no final.

Kotscho me contou que foi uma exigência da editora. E também me contou outras coisas sobre essa mesma editora, a Companhia das Letras. A conversa aconteceu dentro de um táxi quando eu o acompanhava até o hotel. De uma barbearia pré-histórica no velho centro da cidade até o luxuoso arranha-céu que o hospedou por aqui.

Com 40 anos de profissão, o jornalista é uma das maiores referências nas faculdades do curso. No terceiro ano da faculdade, fui obrigado a localizá-lo. Obrigado porque o trabalho era fazer uma matéria com ele, uma matéria sobre ele. Depois de uma longa peregrinação em busca do seu telefone, liguei para a sua casa em São Paulo. Nossa conversa não durou 30 segundos e a impressão foi a pior possível.

Kotscho estava ocupado com a conclusão desse livro. O objetivo da matéria era perguntar os motivos dele ter saído da Secretaria de Imprensa do governo Lula. Ele trabalhou a poucos metros do presidente durante dois anos, mas já o conhecia havia décadas. Eles são amigos próximos desde os tempos das greves no ABC, mas isso é uma outra história.

O que importa é que o seu livro deveria ter esse nome. E essa é uma coisa que ele mesmo disse para mim. O que não é qualquer coisa quando você se dá conta de que esteve tão perto de uma pessoa que admira muito profissionalmente.

Tenho muitas lembranças sobre esse dia na Feira do Livro. Coisas que ele disse quando chegou, andando com dificuldade, apoiado em uma bengala. Coisas que ele disse quando o vi pela primeira vez e pensei que ele parecia mais velho do que realmente é. E das coisas que conversamos a poucos dias do primeiro turno das eleições presidenciais.

Ele me contou sobre o termo Califórnia Brasileira que ele inventou para Ribeirão Preto. Sobre sua ansiedade para saber qual seria a capa da Veja naquela semana — havia suspeita de que iria sair uma ilustração de Lula algemado. Muita coisa.

Mais que tudo isso, ele abasteceu meu estômago apaixonado por jornalismo. Contribuiu para que eu me sentisse ainda mais certo da minha escolha. E ainda me autografou o livro, onde me chamou de “futuro colega de profissão”. Também disse que eu iria continuar contando aquelas histórias todas.

Tomara que além de jornalista ele seja sensitivo.

Antes que eu me esqueça

Também preciso escrever sobre outro monte de coisas. Preciso escrever, simplesmente isso. Escrever aqui. Antes que eu comece a achar que isso aqui já não importa mais. Por um monte de motivos. E pela coisa que ele significou no momento em que foi criado. Mas talvez isso ainda demore um pouco. Ou muito. E então eu vou pensar agora em uma maneira de escrever. Antes que já não haja mais motivo para isso. E então deixarei de ser.

A água mais fria

Preciso escrever sobre o novo disco do Damien Rice. Mas primeiro eu preciso ouvir o CD direito. Inteiro. É muito triste, sombrio e maravilhoso. Talvez não seja melhor que o primeiro. Mas ninguém disse que deveria. Clássicos não precisam ser superados e os gênios só precisam continuar a produzir enquanto podem. Enquanto têm o que criar. E será sempre tão maravilhoso enquanto houver sentido.

Antes de pegar no sono, percebi algo de forte ouvindo o disco. Algo lírico, quase lúdico. Mas antes eu preciso ouvir. E traduzir. E sentir vontade de vomitar um monte de coisas embalado pelos petardos mais dilacerantes daquele maldito trovador. Tem aquela voz... Aquelas palavras que se arrastam até não poderem mais. E deve ter mais um monte de coisas da terceira música para frente.

Cinza

Não gosto do céu de Ribeirão Preto. Ele é quente, é sempre verão aqui. E eu odeio isso. As coisas parecem melhores quando em uma véspera de feriado, uma quarta-feira vestida de sexta, esse céu se acinzenta para mim. Ameaçando uma tempestade. Uma chuva que nunca vai chegar.

E então eu fico pensando sobre o que poderia falar. Que coisas deveria escrever. E então descubro que meus últimos dias não valeram tantas histórias. E que além da aventura de ontem — aquela vivida em torno de um quarteirão paulista na busca por um ingresso para ver um carioca —, sobra muito pouco. Como sempre sobra. E sobre isso eu já contei.

Mas aí eu lembro que já falei demais. E que deve ser pela ameaça de uma tempestade que nunca chega. Deve ser por isso que eu não pare de escrever aqui.

Mas agora eu parei. Juro.

O homem mais irritado de Holloway

Me lembrei da Terça Insana. Uma peça de teatro que assisti no último domingo aqui na cidade. Se bem que eu não penso que aquilo possa ser chamado de teatro. Mas eu acho que vou escrever sobre ela aqui.

(...)

Acabei de decidir. Vou escrever.

Eu devo mesmo ser feito aquele personagem irritado de um livro do Nick Hornby, o Como Ser Legal. Aquele mal-humorado. Aquele que odeia tudo. E foi meio que masoquismo ir assistir a esse espetáculo.

Assim como não adiantaria ir a uma micareta para julgar a música. Ainda mais se o julgamento dessa música estabelecesse uma comparação com a produção erudita. Inimaginável. Mas enfim, Terça Insana não vale o que custa.

É claro que em uma cidade como essa, 98% dos pagantes o fizeram para serem vistos. Talvez porque, para eles, a oportunidade fosse o perfeito encontro de diversão e conteúdo. Para eles.

São duas horas de um imenso vazio. E para não dizer que você sai de lá exatamente da mesma maneira como entrou, eu diria que você sai pior. O que é ainda mais triste. Porque sai com aquela sensação de quem acabou de cometer uma atitude ignorante. E já há muito tempo que o Gustavo Ioschpe disse que a ignorância custa um mundo. Mas isso também é outra história.

É evidente que você não escapa de algumas risadas. E de que em alguns momentos — eu deveria dizer alguns bem poucos? —, você consegue enxergar algumas tiradas inteligentes. Mas essas tiradas acontecem justamente nos momentos menos engraçados. Talvez porque eles não consigam fazer alguém rir sem apelar para velhos clichês de comédias de quinta categoria. Mas talvez eu esteja apelando para o meu mal-humor.

Devo comentar um número onde o ator fazia piadinhas com o sobrenome de famosos? Sabe aquela coisa que você deve ter recebido por e-mail há dez anos? Aquela que diz assim: se você não quis, a Cássia Kiss?

Triste.

Mas tem o número da empregada. O último. Muito engraçado. E tem alguns outros também. Tem atores muito talentosos e algumas frases muito boas. Mas é tudo muito pequeno perto do que Terça Insana é, no final das contas. Muito pequeno.

Vestígios de estranha civilização

Para lá das esquinas daquele centro, era uma manhã que não tinha mais fim. Uma fila interminável, uma demora absurda. Uma espera estóica. Foi mais ou menos assim a batalha por um ingresso. Um ingresso para um dos shows do Chico Buarque em Ribeirão Preto. No Theatro Pedro II. O lugar mais lindo que o homem já construiu — ao menos quando você está lá dentro é assim.

Homens, mulheres, bichos-grilo. Madames, patricinhas e homens normais, daqueles que não parecem freqüentar lugares onde se paga mais que a metade de um salário mínimo para entrar. Mas que estavam ali dispostos a isso. Todos amontoados sob a sombra de um calor de 35 graus. Em algumas daquelas marquises de lojas baratas, onde muitos deles jamais ousarão entrar.

Mas agora já era fatal que o faz-de-conta terminasse assim. E graças à santa da minha mãe, eu consegui o meu bilhete. Depois de quase 12 horas de espera. Penitência cumprida por ela — acho que no tempo da maldade ela também ainda não tinha nascido.

Agora é esperar 33 dias. Mas o amor não tem pressa. Ele pode esperar em silêncio. Porque, assim como a voz dos olhos azuis, não se pode afobar. Talvez porque nada seja pra já.

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